Quão doente está nossa indústria de alimentos?

Por Augusto Terra (Food Ventures) em colaboração com Juliana Bechara Parente (BIOMA.foodhub)


Seguindo o excelente texto da semana passada e usando como base um texto do Michael Pollan, vamos refletir como a indústria de alimentos está exposta e pode evoluir no futuro.

Quão doente está nossa indústria de Alimentos?

Você sabia que a maioria dos novos empreendedores do Brasil está na cadeia de alimentos? Quantas vezes não ouvi a frase: “estou abrindo um negócio” (coloque aqui qualquer idéia que você tenha de uma empresa de alimentos), uma coisa é certa: as pessoas nunca vão ficar sem comer.

Dentro desta cadeia, o setor de Food Service é um dos mais atrativos para novos empreendimentos, ou era antes do Covid-19. Existem no Brasil 1.3 milhões de empresas de Food Service. De cada R$100 que o brasileiro gasta com alimentos, R$34 são fora de casa. Nos EUA, esse número chega a quase 50/50.

A quarentena encerrou boa parte desse segmento e, com ele, muitas empresas e empregos se foram. Pudemos observar quão frágil e complexo é esse mercado. Muitas pessoas enxergam apenas os restaurantes que se fecham, poucas entendem que com eles se vai uma complexa rede de fornecedores. As (muitas) pequenas empresas que vivem de vender comida e ingredientes para restaurantes não conseguem se adaptar para fornecer para mercados - onde o consumo ainda existe e cresce em muitos lugares.

Os duopólios

No home office, boa parte da população mundial, se viu obrigada a cozinhar. E os supermercados ficaram cheios. Alguns produtos básicos sumiram das prateleiras nas primeiras semanas. E a indústria respondeu com um aumento de produção, garantindo que não faltariam mais produtos.

A cadeia de alimentos foi posta à prova em diversas partes do mundo.

Nos EUA, principalmente a indústria de processamento de carne foi amplamente criticada pela prática insalubre de gestão e pela forma como ela colocou milhares de funcionários em risco para garantir a produção e processamento da proteína animal.

Da mesma forma, diversos pequenos produtores (como os de ovos e leite) e agricultores tiveram que jogar fora produções inteiras — por falta da possibilidade de escoar excedentes.

O Food Service foi desenvolvido em todo o mundo como uma cadeia à parte da indústria, fazendo com que quem atende e fornece alimentos para restaurantes não consiga acessar o supermercado para escoar seus produtos em momentos de dificuldades (como o que vivemos atualmente). O que nos leva a crer que a indústria de alimentos se estruturou muito mais em quantidade do que em qualidade.

Essa quantidade, ou escala, faz com que o mercado seja dividido entre poucas empresas. A grande produção de proteína animal, por exemplo, está na mão de—em média—duas grandes empresas dentro dos respectivos setores. Pense, por exemplo, no cachorro quente: você vai comprar uma salsicha em Campinas, quais as opções mais óbvias?! Sadia e Seara. Existem as marcas menores (no meu caso Berna, Prieto), mas se você for para qualquer outra região do Brasil, são as grandes que estão sempre estão presentes. São elas que alcançam escala e preço.

Essa maneira como a indústria foi estruturada explica a razão pela qual a cadeia produtiva dos alimentos se mostra tão fragmentada, nos levando a repensar a importância do consumo local a todo o tempo (sendo ele entendido como uma grande solução para tantos problemas).  Contudo, o consumidor deve começar a entender que talvez as espécies não-nativas (como frutas asiáticas ou vegetais produzidos na Europa) não fazem sentido do ponto de vista ambiental e ecossistêmico.

Mas e o fast-plant-based-food?

Sim, essa parte da indústria é uma das que mais cresceu nos últimos 2 anos, como mencionado na reflexão da semana passada. E isso se deu por uma simples razão: as pessoas querem mudar a forma de consumir. E a indústria quer mudar a forma de produzir a grande maioria dos alimentos processados (e ultraprocessados) de hoje.

Volko Molk é uma empresa vegana russa.

Todos entendem que chegamos em um ponto de produção (animal principalmente) insustentável — e precisamos ter outras opções.

Retomando a pergunta da semana passada, quão saudável é o “fast-food-plant-based”?

Muitas vezes trocamos o hambúrguer da carne que pouco sabemos da procedência pelo de “plantas com sabor animal” acreditando que nosso problemas acabaram.

Não é bem assim né?!

Em algumas culturas, como a americana, as pessoas dependem muito da alimentação fora de casa, e o fast food é acaba sendo a opção mais escolhida.

Grandes empresas do setor de produção de carne já criaram as suas versões plant-based e são plenamente capazes de atender às grandes redes de fast-food. Seguindo o mesmo conceito de: larga escala, baixo preço e pouca nutrição, essa é a forma como as grandes produtoras estão se adaptando à crescente demanda plant-based da população—através de hambúrgueres e frangos empanados—enquanto nós seguimos indagando a qualidade nutricional desses produtos. 

Assim as pequenas empresas do setor de plant-based tomam a liderança para atingir um público fiel e motivado. Com opções mais saudáveis e alternativas para outros ingredientes que nos ajudam a entender na necessidade de pensarmos mais em biodiversidade (brasileira no caso) e então promover mudanças de fato significativas: dependendo menos de monocultura e plantações que apenas buscam maximizar produção e então, impedindo   que essa indústria se torne  mais do mesmo.

O pessoal da Green Kitchen nos falou da ervilha, como ela pode trazer novas texturas, sabores e acesso a mais variedade na linha de produtos plant based, tanto lácteos como substitutos de carne.

O caju é um excelente exemplo: a própria Embrapa vem se esforçando para mostrar que a polpa do caju (normalmente descartada para venderem apenas a castanha) serve até para produzir hambúrguer.

E você, o que acha? Quais inovações te chamam a atenção nessa cadeia?

Quais novos produtos você gostaria de ver na categoria plant based?

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